domingo, 11 de outubro de 2015

"Tenho vontade de mudar de curso."- Uma Reflexão de Alguém que Decidiu Permanecer

"Quero mudar de curso. Mudo ou não mudo?"
Na minha época de vestibular eu tinha 17 anos. Nos anos anteriores eu sonhava em fazer Cinema, mas ainda como uma utopia pois na minha cidade não havia esse curso e muito menos mercado para ele, assim como não tem muito no Brasil na verdade. Mas então, no ano da minha saída do colégio, lançam o primeiro processo seletivo para o curso de Cinema na Universidade Federal. Soube por um amigo, que até veio me mostrar a notícia. Fiquei em êxtase, era o meu sonho de verdade e com todo o cuidado me inscrevi, pois na época como era um curso novo a prova era separada e me lembro até que hesitei em pagar a inscrição do vestibular normal para a mesma instituição (o ENEM não era obrigatório ainda), porém em outro curso, por na verdade querer cursar Cinema mesmo. Mas paguei as duas provas. A prova de Cinema foi em um dia 24 de outubro e infelizmente perdi. A prova era às 8h da manhã e até hoje me lembro que tocou o despertador do celular às 6h30 (eu morava perto do local de prova) e voltei a dormir, pensando que me levantaria em 10 minutos (a idiotice de muita gente). Quando abri os olhos de novo eram 8h30 e minha mãe vinha entrando no meu quarto. Foi o dia mais negativamente marcante da minha vida, passei literalmente horas chorando amargamente, porque era como se eu tivesse perdido o meu sonho. A minha menstruação até caiu naquele dia e não estava nem perto do dia do ciclo, tamanho o choque. Eu era adolescente, foi como se o meu mundo tivesse caído.

Um pouco mais de um mês depois fiz o vestibular normal para o curso Letras sem grandes expectativas, porque eu não havia estudado. Depois ter perdido a prova de Cinema meio que joguei tudo pra cima e não queria mais saber de nada, só de concluir o terceiro ano com êxito. Dois meses depois saiu o resultado e para minha alegria (óbvio, passar numa federal) eu fui aprovada e passei com uma colocação alta.


Uma estranha no ninho
A minha trajetória no curso de Letras teve suas fases. Os três primeiros semestres eu me sentia totalmente obrigada a ir, ia me arrastando dezenas/centenas de vezes, me sentia forçada pela minha família e pelos meus amigos a frequentar as aulas. Mas o drama, o hard desse primeiro um ano e meio se somava aos meus problemas pessoais, do choque da minha transição da escola para a faculdade, de um mundo para outro, dos meus problemas em casa, emocionais e etc. Mas eu mesma de frente para o conteúdo do curso não me sentia bem. Porém fui empurrando com a barriga. Quando eu estava no final desse período, no terceiro semestre, um outro amigo meu que havia acabado de passar me incentivou a sair do curso, a fazer vestibulinho ou o vestibular normal de novo para o curso que eu queria (ele mesmo ia fazer isso, tinha entrado em Matemática e hoje está em Engenharia Elétrica). Aí eu recusei, eu disse que eu já tinha gastado um ano e meio da minha vida e que iria levar até o fim. Que ao menos eu teria um diploma a mais. Que inocência. Ou burrice.

No quarto e quinto semestre comecei a frequentar com mais assiduidade as aulas, a participar de projetos de extensão e eventos, mas se for definir porque fiquei assim digo que foi como a consequência de um empurrão. A pessoa vai indo. Um ano e meio andando no espírito da coisa, no espírito do curso, que me acostumei. Foi nesse período que me comecei a me sentir a vontade em frequentar a universidade, porque eu detestava, quando terminava a aula eu queria logo era correr e ir embora. Mas me adaptei a sentir prazer em entrar no campus, em estar lá.

No sexto em diante foi que realmente abri os olhos. Como a saída de um transe ou alguma coisa que me veio mostrar como as coisas realmente eram. Eu abri os olhos para onde eu estava, para as muitas oportunidades de aprendizado que me cercavam. Percebi também que tinha perdido dois anos e meio de muita coisa por não ter vontade alguma. Mas também lamento pouco, afinal o que eu posso fazer? Comecei a participar e me envolver em tudo com prazer, mas o déficit dos semestres passados naquele tempo e até hoje pesam muito. É como um filme que comecei a prestar atenção perto do final.



Olhando para trás
Obviamente durante quatro anos trocentas vezes me imaginei frequentando o curso de Cinema em vez do de Letras. Sempre que passava em frente do instituto dele me imaginava andando por ele e minha existência no outro como nunca existente. Mas também me passava pela cabeça a ideia de não gostar do curso, de ser o inverso, de eu então me imaginando em Letras. Enfim.

Hoje, sinceramente... agradeço não ter entrado em Cinema. Hoje estou precisando TANTO de dinheiro, tanto de crescer pessoalmente, de conquistar meu lugar na vida que um diploma em Cinema HOJE seria completamente inútil. O mercado para ele aqui é inexistente. Se já é difícil (eu sei que são diferentes) para um publicitário conseguir emprego, quanto mais para um cineasta.





Agora falando sério: conselho para quem pensa em trocar de curso
Tenho um punhado de amigos que estão querendo trocar de curso. E conheço muitos que já fizeram isso. Um conseguiu sair de Letras para Jornalismo, uma outra conhecida trocou Letras por Artes Visuais, outra que trocou Matemática por Letras, um conhecido trocou Biotecnologia por Engenharia de Alimentos e depois voltou pra Biotecnologia (oh que louco), um que trocou Geofísica por Publicidade, uma ex-amiga (cruzes) trocou Biblioteconomia (só faltando o TCC) por Administração, uma amiga trocou Agronomia (quase no final, que dó) por Direito, um amigo trocou Oceanografia por Letras e por aí vai.

O caminho, que planejei quando disse para aquele meu amigo que eu levaria Letras até o fim, de terminar esse para então começar o meu curso sonhado, não é muito percorrido para falar a verdade. Descobri que poucas pessoas fazem isso. Fazem quando são áreas afins, mas gente que faz por prazer? Poucos, senão raríssimos. E por que? Sei bem porquê. Porque é cansativo! Uma graduação é cansativa, custa, seja você goste e pior ainda se você não gosta. Você passa quatro anos dançando conforme a música (entenda isso de forma geral) para chegar em um objetivo. Quando você se forma geralmente se está com a cabeça naquilo e para mudar de área... complicado. Como eu disse, quem faz outra graduação frequentemente é quando relacionado, é para somar ao que ela já iniciou. Tenho uma amiga que acabou de terminar Fonoaudiologia e agora está em Odontologia, outra que fez Pedagogia e agora em Letras e outra que se formou em Recursos Humanos e agora está em Biblioteconomia. Mas também conheço quem já é formado em uma área e a abandonou por outra, como uma ex-colega de trabalho que largou Sistemas de Informação, outro que abandonou Biologia e outra que largou Língua Francesa. Mas ficar passeando entre uma e outra... RARO, senão IMPOSSIBLE.

Se eu gosto de Letras? Gosto, mas não é a minha exata aptidão. Posso não ter me formado como deveria, mas dei o que pude dar. Eu sou uma professora. Pessoalmente, ando mirando para o mestrado e quem sabe um doutorado. Tomada por essa fase da minha vida, quero conquistar coisas, ter minha casa, meu dinheiro, melhorar a vida da minha família, enfim, coisas que estão me doendo muito agora. Eu vou tentar sim entrar no curso de Cinema esse ano, mas sinceramente como se fosse um jogo de dados. Se eu não entrar, não entrei, se eu entrar, não sei se ficarei. Entenda uma coisa: como eu disse, custa fazer uma faculdade. Custa tempo, esforço, disposição e dedicação. Como costumo ilustrar para mim mesma, custa fôlego, energia! Não é uma besterinha cursar um e depois cursar outro. Ainda mais se têm pouco a ver um com o outro!

Sinceramente, eu não sei responder com firmeza quem me perguntasse sobre a idéia mudar de curso ou não. Por eu não ter mudado digo na maioria das vezes que não, até porque levo em conta a idéia de que estou em um barco melhor do que o outro. Mas às vezes não digo nada, afinal, se você não serve para aquele curso é uma perda de tempo mesmo. Como casos de que ouvi falar, de gente que entrou em Engenharia da Computação e depois se embananou com tanta matemática, de entrar em Língua Inglesa e não suportar o que realmente é o idioma. Além de ser algo pessoal, tem se calcular se realmente é o mais sábio a se fazer.

Listei alguns pontos de forma não-presunçosa (digo assim porque detesto listas de afirmações), só querendo passar algumas coisas que devem ser avaliados, na minha opinião:
A) você realmente não se sente bem no curso?
Você não gosta mesmo do que é o curso, é algum mal tempo que está acontecendo na sua vida ou você não gosta das pessoas da turma?
B) Vai te trazer retorno outro curso?
Todo mundo sabe, se não deveria saber, da sua atual realidade. Tem gente que os pais têm condição, em que a pessoa pode ter segurança em investir numa carreira que demore para dar certo. Mas e quem não tem?
C) você é capaz de passar nesse curso? 

Existem aos montes pessoas que sonham ao passar em Direito e Medicina mas nem de longe se parecem com quem está estudando para isso. Tem gente que faz vestibular para cursos de baixa concorrência para depois tentar os que realmente querem. Mas será que é capaz? O que estou querendo dizer não que você não pode, mas você está disposto a pagar o preço em estudo para passar em cursos assim? Porque se não... deixe de conversa mole, de sonhar o preguiçoso morreu e Deus é justo, vá estudar e pare de sem vergonhice de súplicas.

Concluo que fiz uma boa escolha em não mudar de curso. Que fui feliz sim quando me deixei ser. Minha turma não era das inesquecíveis, na verdade foi quase irrelevante. Não me apaixonei por ninguém dentro do campus durante todo o período da graduação. Não bebia, nem fumava (if you know what I mean). Mas conheci pessoas muito especiais que não conheceria em outro lugar, professores e colegas de trabalho. Eu sou de fato uma professora e posso chegar a muitas pessoas. Posso fazer a diferença, isso não é clichê de professor. As pessoas, principalmente as em formação, têm uma grande importância. Entretanto ainda crio sim, e intensamente, histórias que só podem ser representadas através de filmes, não de livros.